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MISSÕES, A VIDA NORMAL DA IGREJA CRISTÃ

(*) Wilson Franklim






            Disse Jesus: “... ide por todo mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc16.15). Este versículo demonstra claramente que a igreja cristã só cumpre integralmente seu ministério quando a atividade missionária faz parte de sua vida (At 1.8).[1] Os batistas têm uma tradição missionária, sempre fomos uma denominação missionária.

Neste artigo meu alvo é demonstrar as cinco faces que compõem a atividade missionária em ralação à igreja, e a importância de atentarmos para cada uma delas. Pretendo ainda fazer ver que quando a igreja desconhece, ou falha em apenas um aspecto, todo o bom desempenho da atividade missionária pode ficar comprometido.

As Cinco Faces que Compõem Missões

A atividade missionária é constituída por pelo menos cinco partes integrantes:

 

1. Missionários. Não é possível fazer missões sem missionários. O missionário é aquela pessoa vocacionada por Deus para a missão de pregar o santo Evangelho de Jesus Cristo, em um contexto cultural diferente do seu (do missionário). Paulo foi chamado pelo Espírito Santo para ser o missionário dos gentios (At 9.15-16). Pode-se afirmar que essa vocação (o dom espiritual de ser missionário) envolve o uso de seus outros dons espirituais, fora de seu contexto cultural, como também no meio de pessoas que vivem no mesmo contexto cultural, mas que pertencem a um grupo social diferente.

Há que se fazer à diferença entre o dom de ser missionário e o dom de evangelismo. Nem todos que tem o dom de evangelismo têm o dom de missionário, mas todo missionário vocacionado tem o dom de evangelismo.



 2. Preparo espiritual, psicológico e técnico do missionário

A igreja não pode esquecer que seu missionário foi (ou irá) para um lugar fora de seu contexto social, ou mesmo estará trabalhando com um grupo social diferente. Com este indicativo, a primeira dificuldade a ser enfrentada pelo missionário já começará na sua mente. É o choque que ele terá entre sua própria cosmovisão, com a cosmovisão daqueles que serão alvo de seu trabalho.

Cosmovisão é o conjunto de crenças a respeito das coisas mais importantes da vida.[2] Hoffecker define cosmovisão como “uma coleção de pressuposições ou convicções de uma pessoa a respeito da realidade que representa sua perspectiva total de vida”[3].

O missionário deverá estar preparado espiritual, técnica e psicologicamente para evangelizar pessoas com uma visão de mundo totalmente diferente da sua. O missionário jamais poderá esquecer-se que o Evangelho é poder de Deus para salvação, e que o Evangelho transforma as pessoas, transformando suas cosmovisões pagãs. Ao contrário, o missionário deve ter uma convicção inabalável de que o poder de Deus, através do Evangelho é capaz de converter os pecadores.

Vale ressaltar também, que o missionário deverá estar pronto para não sucumbir à tentação de absorver a cultura local no que diz respeito à atividade de adoração. De fato, antropologicamente falando, cada cultura tem por trás o seu fundo religioso pagão, que não poderá ser exportado para a adoração cristã.  Essas e outras dificuldades levam ao aspecto seguinte.



3. Sustento espiritual das missões e missionários com orações

            O que se esboçou acima demonstra que as dificuldades enfrentadas pelo missionário no campo são muitas. Neste contexto, se faz necessário que a igreja mãe sustente seus missionários com orações. É preciso acompanhar permanentemente as nossas missões e missionários do ponto vista espiritual.

Não se pode esquecer: fazer missões é estar em guerra contra as forças do mal. “Pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra... as hostes espirituais da iniqüidade” (Ef 6.12). Neste contexto, o surgimento de problemas sempre será uma ameaça presente, seja na esfera espiritual, seja na material. Mas o lado bom é que a igreja de Jesus está preparada, pelo Espírito Santo, para enfrentar qualquer oposição das trevas.

Paulo esboça de maneira clara as armas para esta guerra (Ef 6.14-17) e finaliza mostrando a importância da igreja se manter firme nas orações. “Com toda a oração e súplica orando em todo tempo no Espírito e, para o mesmo fim, vigiando com toda perseverança e súplica, por todos os santos” (Ef 6.18). O verbo vigiar nos conduz ao quarto aspecto que será discutido a seguir.




4. A administração da atividade missionária

Não tenho dúvida de que esta é a mais difícil de todas as partes, a administração da atividade missionária, porque nos envolve diretamente com as nossas missões. A esse respeito, somos instruídos por Jesus a sermos bons mordomos de Deus (Lc 16.2). O apóstolo Pedro também afirmou que devemos ser bons administradores das coisas de Deus: “servindo uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4.10). Estes textos nos dizem que precisamos manejar responsavelmente os recursos do Reino de Deus que foram confiados a nossa igreja, recursos estes não apenas financeiros, mas também recursos humanos, e principalmente os recursos espirituais.[4]

            Fica claro que é preciso acompanhar bem de perto o que está sendo feito nos campos, pelos nossos missionários. Como o trabalho está sendo realizado, quais os resultados efetivos em termos de conversões. Quais as dificuldades do trabalho naquele campo em particular, o que a igreja mãe pode fazer para ajudar na superação das dificuldades. E algo importantíssimo que muitas vezes esquecemos: como é a vida pessoal do missionário (e família) no campo... Um obreiro que não é um exemplo de vida cristã pode ser um desastre no campo missionário. Da mesma forma que um missionário com vida exemplar é uma grande benção para qualquer missão.

            Diante de tal realidade se faz necessário, por parte da igreja, estabelecer mecanismos indispensáveis para o acompanhamento e controle da atividade missionária, tais como: relatórios (At 14.27); visitas periódicas ao campo, estabelecimento de metas a serem cumpridas, acompanhamento do cumprimento dessas metas... Para que a cada instante a igreja mãe possa ter uma “radiografia verdadeira” do que acontece em suas missões.

A igreja mãe, na medida em que conhece realmente o que acontece em suas missões, pode no decorrer do caminhar do trabalho missionário, fazer as devidas correções no rumo do trabalho, para que o crescimento seja alcançado. Não tenho dúvida de que muitos campos apresentam baixos resultados em termos de conversões por falta de uma boa administração da atividade missionária. Uma vez que não há campo impossível diante do poder do Evangelho.

A última parte diz respeito ao sustento financeiro da atividade missionária.



5. Sustento financeiro das missões e missionários

Não há como realizar qualquer empreendimento sem recursos financeiros. Da mesma maneira a obra missionária precisa de recursos para seu sustento. É necessário sustentar o obreiro, o imóvel a ser utilizado, e todas as demais despesas inerentes à atividade missionária.

Mesmo assim, em minha ótica, essa é parte mais fácil de todas, porque o nosso povo é um povo que tem missões no coração. Alguém poderá dizer: Mas pastor Wilson, se tem tanta falta de recursos financeiros? Eu não penso que temos recursos de sobra, tenho consciência de nossa realidade batista e brasileira. Todavia tenho a convicção de que sempre temos a quantidade de recursos que a nossa fé alcança.

Mesmo assim tenho uma visão otimista do Reino de Deus. Nosso Deus é o Senhor e proprietário do universo. Durante toda existência da humanidade nunca faltou e nem faltará recursos para realização da obra de Deus. Quando seus filhos se dispõem a fazerem o trabalho do Senhor, ele disponibiliza os recursos financeiros para tal, através da sua santa providência.

Do nosso lado temos de nos esforçarmos ao máximo, exercermos nossa fé através de nossos bolsos com nossas contribuições. Certamente que na medida em que nos dispomos a contribuir, Deus nos abençoa. Esse tem sido o seu método por gerações e gerações...

 

Conclusão

Nenhum salvo em sã consciência desprezará a atividade missionária. Conforme foi demonstrado, fazer missões não é apenas contribuir financeiramente. Muitas vezes apenas contribuímos e acreditamos na ilusão de que já fizemos tudo que podíamos fazer, agora é só esperar por muitas conversões... Mas não é assim que as coisas funcionam.

            É muito importante nos esforçarmos ao máximo e contribuirmos com os nossos recursos financeiros para missões, mas também é igualmente necessário e importante sustentarmos nossos missionários e missões com as nossas orações, e administrá-los através de nossas igrejas, como bons mordomos de Deus.

Portanto, cada salvo deve manter um forte coração missionário, sendo forte na contribuição, e nas orações. Por outro lado, a igreja nunca poderá perder de vista a administração de todas as suas frentes missionárias, numa constante busca pela excelência dos resultados medidos em almas convertidas ao Reino de Deus. Que o Senhor da Igreja guie os nossos passos nesse sublime caminhar.  

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(*) O Autor é Pr. da PIB em Higienópolis (RJ), Doutorando em Teologia. Contatos Wf6@ig.com.br



[1] Souza, Itamir. Atos dos Apóstolos. Descoberta, Londrina, 1999. p.130.

[2] Nash, Ronald. Worldviews in Conflic. (Grand Rapids: Zondervan, 1992), p. 6. 

[3] Hoffecker W. Andrew.  Preface: Perspective and Method in Building a World View. Edited by Hoffecker, (Presbyterian & Reformed: 1986) p. 9.

[4] Conciso Dicionário de Teologia Cristã – Millard J. Erickson