Mas, ainda que nós mesmos
ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho
anunciado, seja anátema.
Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se
alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.
Gálatas 1:8,9
Quem fala de si mesmo busca
a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é
verdadeiro, e não há nele injustiça
João 7:18
Passava com minha esposa pela
esquina de uma rua em minha cidade, quando deparamos com uma faixa estendida no
pórtico de uma igreja dita evangélica, com os seguintes dizeres: “Oração forte, atendimento com revelação”.
Muito embora ocorra já de maneira comum no meio evangélico, tais artifícios
ainda me deixam muito incomodado sempre que os testemunho. As pessoas que ali
“atendiam” estavam à porta, todas vestidas de branco da cabeça aos pés.
Prometo não implicar com o
“uniforme” dos irmãos, afinal existe gosto para tudo. Mas o que salta aos olhos
é a flagrante corrupção dos princípios bíblicos, em detrimento de artifícios
quase (eu disse quase?) estelionatários – 171 mesmo – para ganhar-se algum tipo
de audiência, seja nas reuniões, seja nos meios de comunicação aí disponíveis.
O termo “anátema” usado pelo
apóstolo Paulo em seu inflamado apelo aos Gálatas, retrata de forma fiel o que
estas pessoas têm praticado em nossos dias, do ponto de vista do reino de Deus.
A palavra anátema, de acordo com o Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento (Vida Nova), é empregada por Paulo para definir a coisa amaldiçoada que foi à destruição. Aquele que prega um falso
evangelho é entregue à destruição por Deus. A maldição expõe os culpados à ira
judicial de Deus.
Segundo os comentários de R. N. Champlin, no Novo
Testamento Interpretado Versículo por Versículo (Candeia), o termo expressa algo para ser destruído; uma destruição
neotestamentária está em foco, a saber, a perdição do juízo final, ou seja, a
perda da graça, quando se torna – peço licença para uso do termo – desgraçado.
Anátema, portanto, é a coisa ou a pessoa maldita,
desgraçada (destituída da graça de Deus), entregue para a
destruição, passível da ira do juízo de Deus.
A aplicação de anátema no texto é claramente
atribuída a todo aquele que anuncia outro evangelho (“anuncie outro evangelho além do que já vos
tenho anunciado (...) Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já
recebestes, seja anátema”).
Que outro
evangelho? Na situação em foco, estas pessoas as quais são omitidos seus nomes
(talvez para preservar o cunho impessoal da questão) estavam persuadindo os
crentes da Galácia a desprezarem os fundamentos da graça e da fé no reino de
Deus trazido por Cristo, pelo fortalecimento de práticas judaizantes e do
restabelecimento da lei mosaica. Para tanto, atacaram com veemência a pessoa e
o trabalho do apóstolo Paulo no meio daqueles, com vários argumentos
maliciosos; era necessário desautorizá-lo perante toda a igreja, negar sua
dignidade apostólica.
Assim como a
questão da anulação da graça era – e continua sendo – um ensino pernicioso,
existem hoje elementos peçonhentos, verdadeiras colocíntidas (2 Reis 4:40) que
têm trazido morte na panela do povo de Deus.
A palavra “além” (v. 9) denuncia a estratégia do inimigo através de seus
falsos mestres, cônscios ou não, sempre inventando penduricalhos doutrinários e
dogmáticos, impondo aos mais incautos obrigações e restrições a seu bel prazer,
tudo ao arrepio da sã doutrina.
Com efeito, o apóstolo João em sua
segunda carta, inspirado pelo mesmo Espírito, corrobora com a postura adotada
por Paulo, como se vê:
Todo aquele que vai além do ensino de
Cristo e não permanece nele, não tem a Deus; quem permanece neste ensino, esse
tem tanto ao Pai como ao Filho.
Se alguém vem ter convosco, e não traz
este ensino, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis.
Porque quem o saúda participa de suas
más obras.
2João 9-11
Paulo não exclui nenhum ser vivente
da condenação por esta prática delituosa, quando apresenta a figura de um anjo
como a autoridade mais elevada possível, abaixo de Deus. Registros históricos
nos dão conta de formação de castas de falsos mestres já no primeiro século da
igreja neotestamentária, que se valiam dos nomes dos apóstolos para revestir-se
de certa autoridade ao ministrar ensinos heréticos.
Vale lembrar que o texto foi
dirigido à igreja, e trata, assim como em toda a carta, da responsabilidade de
todos os membros da congregação na preservação do evangelho genuíno. Isso quer
dizer que os anátemas (malditos) a que o apóstolo se referia encontravam-se
entre a liderança desta mesma igreja, juntamente com seus seguidores. Além
disto, Paulo responsabiliza a congregação pela manutenção daqueles falsos
mestres no ministério da igreja, seja pela omissão principalmente por parte dos
líderes verdadeiros, seja pela leniência com que admitiam os ensinos estranhos
sem a devida confrontação.
Também vale dizer que os Gálatas já
haviam sido orientados pelo apóstolo anteriormente à situação em questão (Assim, como já
vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo...), fato
este que exclui a possibilidade de erro pela ignorância por parte da
congregação e conseqüentemente autoriza a devida cobrança pelo zelo, pela
preservação de tudo quanto fora ensinado.
A palavra, caro leitor, é firme e
severa: Aqueles que trazem outro evangelho além do que temos recebido pela
Palavra de Deus é maldito, não importa quem seja; importa sim é o que fala. E
não estamos falando de bruxos, satanistas, feiticeiros, ateus, e outros do
mesmo grupo de Apocalipse 22:15: Assim como no caso da igreja da Galácia, o
texto aponta para pastores, líderes de ensino, mestres, enfim, todos aqueles
que ocupam uma liderança reconhecida pela congregação e estão ensinando
doutrinas estranhas ao evangelho genuíno.
Não há mais como fazer vista grossa
a tanto entulho travestido de “doutrina bíblica” que tem invadido nossos
púlpitos e nossas casas, através de aparelhos de TV e rádio, jornais e outros
veículos de comunicação, como se fosse palavra de Deus. Ensinos que não passam
de doutrina de homens, quando não são diretamente ensinos de demônios. Vivem da
carnalidade das massas, chegando a estabelecer uma co-dependência para sua subsistência. Noutra carta, desta
vez endereçada ao irmão Timóteo, Paulo recomenda a mesma postura diligente:
Mas o Espírito
expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando
ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios;
Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a
sua própria consciência;
1Timóteo 4:1,2
Em certas
(várias) congregações, as pessoas não crescem, não amadurecem na fé, pois seus
líderes vivem da miséria – principalmente a espiritual – do povo. Acabam por
assumir uma situação de mendicância, nos farrapos espirituais pela ênfase às
atuações de demônios. Dão “diagnósticos” aos problemas de seus membros (quando
estas igrejas têm membros), como se estivessem num nível espiritual superior,
como se tivessem poderes próprios para realizar a obra de Deus.
Usam e ensinam a
usar termos criados e usados pelo ocultismo, pela feitiçaria, e por outros
ninhos do inimigo, afastando as pessoas cada vez mais da sã doutrina, de um
relacionamento sadio com o Senhor Jesus. Onde já se viu na Palavra de Deus
termos como “encosto”, “descarrego” (creio que pela lógica, deva então existir
o “carrego”), “atendimento com revelação” (isso é coisa de feiticeiros!),
“banhos” com as mais variadas quinquilharias, “sessões” (muito usado por
feiticeiros), terapia do amor, terapia do sucesso (qual base bíblica para se
ministrar “terapia”?), e outros provenientes desse mesmo lixo doutrinário, que
não encontram o mínimo embasamento bíblico, e que apenas enfraquece o
entendimento do evangelho genuíno, da mesma forma que se fazia nos dias de
Paulo.
Sem falar nas flores, meias, lenços,
passar embaixo de “arcos e balões de amor”, óleo santo de Israel (ou de
qualquer outro lugar), água do rio Jordão, areia do mesmo rio, espada de Davi
(o da pessoa que queria me dar era um cabo de vassoura com papel laminado –
para balançar e afastar o inimigo!), anel do amor (não me pergunte que também
não entendi), sabão do descarrego (sem comentários), biscoito da bênção,
perfume do amor (pasmem: para arrumar namorado!), estrela do rei Davi, sangue
do cordeiro pascal, e outros tantos penduricalhos de uma fé rasa e cada vez
mais distante do objetivo da Palavra, que é o de nos aproximar do Senhor, e não
das coisas. Ouvi de outra dita igreja evangélica, fazendo campanha para “trazer
a pessoa amada”, e logo me lembrei dos anúncios das ciganas feiticeiras na
cidade, que prometem os mesmos feitiços. Hoje tenho por certo que, quanto mais
se afasta da palavra de Deus, menos noção se tem do ridículo.
Certo pastor me disse que usa artifícios
deste tipo para com seus membros, pois “ajuda
na fé; materializa, concretiza a fé em algo material”. Que absurdo! É o
mesmíssimo argumento usado pelo romanismo para a adoração de ídolos. É o
mesmíssimo argumento usado pelo ocultismo para uso de cristais, pedras,
amuletos, etc. De onde este pastor tirou isto? Qual base bíblica? E como fica
Hebreus 11? E 2Coríntios 7:5? E Gálatas 2:16? E 2Timóteo 4:1-4? Estamos
assistindo passivamente a criação de uma geração de débeis na fé (1Coríntios
3), de meninos inconstantes, de
supersticiosos, fundamentados em solo argiloso, que não suporta a mínima
provação.
Outro líder se justificou com o argumento
de “usar estes artifícios como estratégia
para ganhar, para atrair as pessoas que acreditam nestas coisas ou as praticam”:
É o cúmulo da ignorância da palavra e do poder de Deus (Mateus 22:29)! Não
podemos nos esquecer de que é o Espírito Santo quem nos convence do pecado, da
justiça e do juízo (João 16:8); na verdade nós não ganhamos ninguém, apenas
proclamamos o evangelho e servimos de instrumento para a ação do Espírito
Santo. Nosso raio de ação se limita à divulgação do evangelho. Não há problema
em falarmos que ganhamos alguém (como instrumento, não como essência), desde
que entendamos que na verdade é o Espírito Santo de Deus quem convence, quem
realiza a obra. Então, que valor tem estas ditas “estratégias”, se o que conta
é o poder de Deus, a ação do Espírito? Será que o evangelho precisa destas
“arapucas” para ganhar as pessoas? Não é pela persuasão humana que somos
instruídos a agir, como se vê neste trecho da carta aos Coríntios:
E eu, irmãos, quando fui ter convosco,
anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de
sabedoria.
Porque nada me propus saber entre vós,
senão a Jesus Cristo, e este crucificado.
E eu estive convosco em fraqueza, e
em temor, e em grande tremor.
A minha linguagem e a minha pregação não
consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do
Espírito de poder;
para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens,
mas no poder de Deus.
Na verdade, entre os perfeitos falamos sabedoria, não
porém a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo
reduzidos a nada;
mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, que esteve
oculta, a qual Deus preordenou antes dos séculos para nossa glória; (...)
1Coríntios
2:1-7
O que atrai as pessoas é a presença do
Senhor, justamente a opção adversa a todos estes caminhos imprestáveis e vazios
por si só. O caminho de Deus é algo único e distinto de qualquer outro caminho,
e isso é o que deveria ser enfatizado, ao invés de tentar-se imitar práticas
mundanas e demoníacas desprovidas de qualquer fruto bom. A palavra de Deus não
precisa de ajuda, não fomos chamados para inventar. Resta-nos a reflexão sobre
quem e o que realmente se ganha ao agregar pessoas em torno destas distorções,
verdadeiras mutações doutrinárias.
Onde está o ensino de Cristo (2Jo 2:9)
nestes argumentos? Onde está a sã doutrina nestas práticas (Tt 1:9)? Em Tito
2:1, somos exortados a falar o que convém à sã doutrina. Em 1Timóteo 1:3, temos
a instrução para se advertir a todos para que não ensinem doutrina diversa. Em
Hebreus 13:9, temos instrução para não nos deixarmos levar por doutrinas várias
e estranhas. Por quê então insistimos nessa tolerância pecaminosa com doutrinas
de homens (Cl 2:22), doutrinas estranhas ao ensino da Palavra de Deus, ventos
de doutrina, doutrina de demônios, enfim; o que precisa para dar-se um basta
nestas práticas no meio do povo de Deus? Responda-me, caro leitor, sem pôr a
culpa nos outros, se puder.
O fato é que existem doutrinas estranhas
em nosso meio, e não são poucas. O que falta, ao meu ver, é a devida coragem
para identificá-las, assim como seus mestres; há muitos interesses envolvidos e
muitos poderes deste mundo tenebroso já se encontram estabelecidos no meio do
arraial. Temo pela relação parasitária crescente e contínua que a igreja mantém
com estas lideranças, as quais têm imposto sua posição e seus ensinos pela
força de Mamon, pela força dos meios de comunicação de massa, e pela força do
prestígio político (a propósito, voltamos a nos prostituir com o Estado, como
no século IV?). A triste impressão que tenho é a de que, se tiver dinheiro (e
nem precisa ser muito) e influência envolvidos no “esquema”, a gente até aceita
a convivência com um falso mestre ou uma doutrina estranha, para atender
determinado interesse – simplesmente patético.
Noutra epístola paulina, agora dirigida
ao irmão Tito, nota-se a mesma preocupação, no que diz respeito ao
estabelecimento ministerial em Creta, haja vista a necessidade da mantença dos
mesmos procedimentos adotados em outras igrejas. Assim como hoje, os falsos
mestres daqueles dias se tornaram uma praga que se alastrava nos quatro cantos
do campo missionário. O texto é forte, e acompanha o mesmo tom grave aplicado
aos da Galácia:
Porque há muitos insubordinados,
faladores vãos, e enganadores, especialmente os da circuncisão, aos quais é
preciso tapar a boca; porque transtornam casas inteiras ensinando o que não
convém, por torpe ganância.
Um dentre eles, seu próprio profeta,
disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, glutões preguiçosos.
Este testemunho é verdadeiro. Portanto
repreende-os severamente, para que sejam são na fé, não dando ouvidos a fábulas
judaicas, nem a mandamentos de homens que se desviam da verdade.
Tudo é puro para os que são puros, mas
para os corrompidos e incrédulos nada é puro; antes tanto a sua mente como a
sua consciência estão contaminadas.
Afirmam que conhecem a Deus, mas pelas
suas obras o negam, sendo abomináveis, e desobedientes, e réprobos para toda
boa obra.
Tito
1:10-16
Zelo pelo respeito devido aos pequeninos
que praticam tais ensinos, pela ignorância da sã doutrina, que obedecem de
coração sincero e sedentos por mais de Deus – certamente terão do Senhor Jesus
a devida recompensa, e serão libertos pelo conhecimento da verdade. Contudo, a
todos aqueles que trazem em seus ombros a responsabilidade, a carga do ensino
da palavra de Deus e o peso do cajado conferido por Cristo, assim como todos
que são iluminados pelo ensino da palavra e conscientemente a abandonam, todos
serão cobrados pelo que têm ministrado a igreja do Senhor, assim como agem com
respeito àquilo que lhes é ministrado; exatamente como foram nos dias de Paulo.
Não há que se confundir tolerância com
aquiescência. A imputabilidade de culpa em casos de ignorância doutrinária é de
cunho estritamente provisório, e pede o resgate imediato do ensino da Palavra,
em caráter emergencial. Dessa forma, são os crentes de Éfeso exortados:
Para
que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de
doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.Antes, seguindo a verdade em amor,
cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo (...).
Efésios 4:14,15
Uma das primeiras
providências do apóstolo foi a de denunciar as práticas e os praticantes destas
perversões doutrinárias. Há um tom de urgência em todo o teor da epístola,
recheada de críticas, protestos e objeções. As diferenças entre o apóstolo e os
líderes da circuncisão foram expostas com o propósito de se realçar os
verdadeiros valores pelos quais um ministério deveria ser avaliado. Movido pelo
Espírito de Deus, Paulo ministrou o juízo divino à igreja da Galácia, expondo à
luz do evangelho todo o veneno que estavam enfiando garganta adentro daqueles
crentes.
Da mesma forma, tenho a convicção de que
é responsabilidade de todos nós zelarmos pela sã doutrina, invocando o juízo de
Deus no meio de Sua igreja, para que venha trazer à luz toda manifestação estranha
ao Reino de Deus.
Os falsos mestres
devem ser confrontados pela liderança genuína da igreja, face ao desserviço que
vêm prestando. E a igreja deve reassumir sua posição de fiel despenseira das
coisas do Senhor, sabendo que o zelo do Senhor está sobre a cabeça de todos
aqueles que se chamam pelo Seu nome. Fica, por fim, a recomendação à igreja em
Filipos:
Acautelai-vos dos cães; acautelai-vos
dos maus obreiros; acautelai-vos da falsa circuncisão. Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e
nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne.
Filipenses
3:2,3
Anderson Lopes
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